Quinta-feira, Março 31, 2011

Trocando idéias II...

Resposta do meu amigo @enoquemp
Todavia, se trata de uma conversa e não de um artigo.
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Olá, Kris.

O que
mais me incomodou e incomoda em toda a minha vida são os relacionamentos. Lendo seu texto e o do outsider, verifico que esse isolamento que algumas pessoas se impõem ou são relegadas é menos por questões ideológicas que por desilusão com as relações sociais.

A artificialidade nas relações não é um atributo direto do capitalismo. Mesmo nas sociedades menos devotadas a esse sistema essa artificialidade é recorrente.

Penso que somente numa sociedade em que o trabalho não fosse o ponto de convergência entre as pessoas se poderia construir uma relação com mais profundidade. Quando se acredita que é preciso contribuir para um fim maior, externo a si mesmo, todas as demais coisas estarão subordinadas a essa meta.

Basta observar as aldeias de sociedades primitivas, tais como as indígenas ou esquimós. Os ritos mais importantes, as maiores bebedeiras conjuntas são realizadas não por acaso entre a primavera e o verão,
épocas de plantio e colheita e de fartura na caça e pesca. Nesse período a comunidade se alegra e os filhos são concebidos.
A aproximação das pessoas é diretamente correlata ao vigor da comunidade como um todo. Nesse sentido é que digo que ela é artificial.

Penso eu que essa artificialidade reside na perspectiva em que a pessoa se vê em relação ao outro. Se você se vê em relação ao outro como quem pode ganhar algo dele, como se ele fosse útil para um fim
maior que ele mesmo (um degrau), então não se deve esperar menos que uma relação supérflua e transitória.

Só a estrita reciprocidade pode quebrar essa superficialidade. O outro sou eu em outra pele. Nele estão minhas dúvidas, minhas impotências, minha carga de preconceitos e mesquinharias. Quando eu vejo o outro como um eu replicado, logo eu me torno ansioso em querer contribuir para com ele, em querer melhorá-lo. Nesse sentido, o desejo de ajudar não é egoísta — ajudar para se sentir bem —, mas uma tentativa de obtenção de respostas. A ajuda então não é dar a mão, antes, é perguntar junto, desesperar-se ao lado, alcançar as mesmas respostas e se alegrar com elas.

Concordo plenamente contigo com respeito às mulheres. Essa concepção de um príncipe num cavalo branco ainda é bem presente no imaginário feminino. Embora, é dever dizer, os homens também se consideram esses príncipes. Entes protetores, dominadores, domadores de mulheres, pois elas não são capazes de andar sozinhas.

Essa é a mentalidade masculina. Diante de tal quadro é impossível esperar reciprocidade verdadeira. Homem e mulher, em geral, esperam que o outro cumpra determinado papel. Não se vêem como indivíduos iguais na limitação, iguais na tentativa de viver e buscar sentido nisso. Se vêem como seres acabados cujo papel de cada um já está prescrito.

Meu isolamento é devido a isso. É quase milagroso conseguir transpor essa barreira de costumes.

Um abraço.

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