Quinta-feira, Junho 16, 2011

Para me tornar humano, é necessário me desumanizar, gozando?!

Estava eu na sacada do apartamento onde moro, experienciando um rotineiro cigarro pós almoço, numa tentativa vã e ilusória de abster-me do fluxo contínuo de pensamentos, ainda que por alguns instantes apenas, tal como logrou o poeta em seu poema – não por acaso, considerado o mais belo poema da língua portuguesa.

Frustrado em tal tentativa, me restava somente o encontro com o próximo pensamento que viria à mente, e eis que ele surge na forma de uma sentença: "Para me tornar humano, é necessário me desumanizar".

Desumanizar? Como assim? Certamente, seria este mais um daqueles pensamentos que não fazem muito sentido. Dei mais um trago e deixei seguir o pensamento, não mais a esmo, mas direcionando-o na busca por alguma lógica que fizesse sentido. Ainda refletindo, ao pensamento anterior sucede uma idéia, através da qual compreendo que esse desumanizar-se, não seria em fato, abrir mão de uma natureza humana, ainda que essa natureza não me fosse completamente conhecida, não significava abrir mão dela.

Desumanizar, então, passa a ter um novo sentido: seria uma forma de vivenciar um não-eu, na medida em que esse processo levaria a uma espécie de desmascaramento da persona – persona palavra latina derivada de phersu, que significa personagem, em termos contemporâneos pode ser entendida como personagem ou papel social – revelando não mais os personagens de que me sirvo para as relações sociais, mas um ente que não é em todo abstrato, mas tão pouco um ente concreto.

Percebo que não é possível racionalizar sobre o que seria esse não-eu, senão por uma contraposição ao que ele não é, sendo assim, vivenciar esse não-eu seria como abrir mão da persona.

Tentando trazer mais sentido para essas idéias, me lembrei do que os místicos narram sobre o êxtase, que em muitos casos pode ser entendido como uma experiência de perda do ego, ao passo que sobrevêm uma sensação de integração com o todo.

Dei mais um trago e comecei uma varredura na memória em busca de alguma lembrança que remetesse a essa sensação, e sem nenhum juízo moral e sem me sentir reprimido pelo meu superego, me veio à mente o gozo.

Não é possível traduzir com palavras o gozo. Pois o gozo é aquela sensação não racional, em que se perde os pensamentos, a noção do corpo, do outro, do espaço e do tempo. É forma de nos perdemos no outro.

Da mesma forma que a persona só existe porque é um reflexo do outro – tal como só pode existir o pai se existir o filho - a perda da persona, do eu ou ainda do ego, acontece no caso do gozo por um paradoxo, o gozo pré-supõe o outro.

Como gozo, não entendo aqui o ato sexual, tão menos me refiro à penetração, menos ainda é a ejaculação. Me refiro àquela fração de instantes, que por meio do ato sexual, somos levados – ou tomados - para uma outra realidade em que o sujeito ou persona, pela mesma fração de instantes do gozo, deixa de existir como persona. É como se transcendesse o tempo e o espaço. Uma espécie de supremo sentir. O gozo acontece por meio do sexo, mas não é todo sexo que se goza, ainda que ejacule.

Continuo jogando fumaça para meus pulmões, e refletindo sobre o gozo. Seria ele tão somente uma descarga elétrica executada por um comando cerebral onde meu corpo momentaneamente fica paralisado, provocando essa miríade de sensações.

Penso que entender esse gozo tão somente como uma descarga elétrica cerebral, é pensar no gozo como sendo somente uma atividade física, descartando então toda esfera do processo mental. Mas se pensasse assim, não estaria eu tomando o efeito pela causa?

Me veio à mente, após um outro trago, uma frase do filme The Matrix: "Negar nossos impulsos é negar o que faz de nós humanos".

Somos humanos porque sentimos ou porque pensamos? É o velho debate entre os filósofos empiristas e racionalistas. Somos o que pensamos e o que sentimos, para que precisamos dividir o todo?

Se a nossa natureza pode ser reconhecida pela nossa capacidade de raciocinar e de perceber por meio dos sentidos, o gozo seria uma espécie de curto-circuito da razão e dos sentidos. Faz algum sentido?

Tão rápido como o fluxo de pensamentos que me tomou, se esvai o cigarro que fumava e antes que ele termine, percebo no gozo uma das formas de vivenciar essa transcendência da persona. Sugerem os iogues que através da meditação pode-se alcançar essa vivência – mais chatinha, convenhamos – e de muitas outras formas, por hora, fiquemos no gozo do gozo.

Apago meu cigarro e como se não pudesse mais controlar, volto a pensar frivolamente nos afazeres corriqueiros, após um último suspiro, volta a reinar soberano meu ego. Ligo a TV, o vídeo-game e me divirto com mais uma partidinha de futebol.

Quarta-feira, Junho 15, 2011

Mais vale a busca pelo viver do que viver um não viver.

Refletindo sobre uma troca de tuites com amigos, falávamos sobre a alienação da vida, as escolhas que muitas vezes nos levam a uma espécie de não vida e também sobre a dificuldade de continuar buscando por lampejos de uma vida real.

Lembrei-me de uma história, em que um psicanalista cuja analisanda era atormentada em sonho por um monstro de mil faces. Por ter esse monstro mil faces, não tinha como se concentrar em um rosto. O psicanalista pediu-lhe, por isso, que deixasse de tentar identificar o semblante do monstro e se limitasse, da próxima vez, a despistá-lo, vagando a esmo por toda paisagem que se apresentasse como caminho possível.

Seguiu à risca o conselho, andou por um bom tempo a passos firmes. Um grito ao longe a assustou. Começou a correr. Corria, corria e corria. Olhava para o lado e o monstro colado à sua sombra. Percorreu um longuíssimo caminho. De repente, exausta, sobrou-lhe somente entrar numa ruela escura e sem saída. Lá, sem mais alternativas, viu-se no fim da linha. Encurralada, prestes a desfalecer, olhou nos olhos do monstrengo e perguntou aterrorizada: "O que você vai fazer comigo?" Eis que responde atônito o monstro: "Não sei, não tenho como saber. O sonho é seu!"

Deixando esta história de lado por alguns instantes, me vem a questão se podemos de fato ou não ser donos de nossas escolhas.

Para alguns filósofos, as paixões que nos impelem para participar dos acontecimentos da vida e do mundo, são meras agitações do espírito, já que no curso dos fatos da vida - pessoal, coletiva e cósmica - estamos submetidos a férreos determinismos.

Outros pensadores acreditam que o ser humano é dotado de livre-arbítrio e que com isso, podemos responder à contento ao desenrolar dos acontecimentos da vida, tomando posição, recriando as situações e nos recriando à partir delas.

Votando à história, que me pareceu muito oportuna para o tema, pois ilustra de alguma forma que mesmo que estejamos vivendo em sonho, e que em algumas situações nos achemos encurralados por monstros sombrios em situações que não vemos saídas, ainda assim, tal sonho ainda nos pertence.

Como apregoa o budismo e muitos outros filósofos – como Aristóteles - e até mesmo o mais popular dos cantores da década de oitenta, Renato Russo (liberdade é disciplina), a liberdade está em desapegar-se.

De qualquer forma, essa afirmação merece uma melhor reflexão.

É inegável que os planos mais importantes do nosso ser, na maioria das vezes nos são desconhecidos. Temos consciência apenas parcial de quem somos. Não sabemos exatamente por que somos ou o que somos. O que torna mais complexo ainda essa busca pelo que somos – e que possivelmente qualquer luz a esse respeito, refletiria na experiência de um viver mais autêntico – é a oferta fácil e abundante que temos à nossa volta de um consumo irrefreado e uma busca ávida pelo prazer fácil, nos afasta facilmente dessa experiência autêntica.

A teatralização das relações contemporâneas - permeada pelo individualismo que isola e pela busca de uma falsa felicidade no consumo, sem contar as muitas outras ferramentas de alienação – só nos faz aprimorar a teatralização da persona que querem que nos tornemos, com isso, nos afastando da persona autêntica que podemos nos tornar.

Estamos à mercê da crença de que a técnica e o consumo são as panacéias para uma vida feliz. Nessa busca irreal pela felicidade, nos afastamos do conhecimento sobre os desejos que nos alimentam e dos conflitos que nos devoram. Acabamos por não compreender as tramas vivenciais que se desenrolam à frente dos nossos olhos e com isso, somos facilmente abatidos por uma angústia existencial que aplaca nossa vontade de seguir em frente buscando.

Desconhecemos a importante dialética entre o pensar e o agir. Razão e sentir deveriam caminhar juntos, mas excluímos um pelo outro, abrindo mão do sentir verdadeiro, por uma razão que desemboca numa técnica desumanizante, na forma de novos e desnecessários produtos. Com isso, nos tornamos órfãos desse sentir mais profundo, afetando a construção de nossa identidade, nos transformando em meros autômatos.

Como disse meu amigo em seu tuite, chega determinados momentos que essa busca cansa, se torna exaustiva. Mas ainda fica a questão: o que estamos buscando de fato? Se estamos buscando a construção de uma nova identidade que transcende o comportamento autômato e consumista, persona que se constrói na solidão do ser, é fato, mas que ao menos em hipótese, poderia nos dar um lampejo de uma vida autêntica, ainda que somente um lampejo, já não valeria por toda exaustão?

Enfim, não tenho tais respostas. Desconfio não ter vivido ainda tal lampejo, mas como diz o provérbio: "O mais importante não é chegar, mas sim o caminho percorrido até lá."