Estava eu na sacada do apartamento onde moro, experienciando um rotineiro cigarro pós almoço, numa tentativa vã e ilusória de abster-me do fluxo contínuo de pensamentos, ainda que por alguns instantes apenas, tal como logrou o poeta em seu poema – não por acaso, considerado o mais belo poema da língua portuguesa.
Frustrado em tal tentativa, me restava somente o encontro com o próximo pensamento que viria à mente, e eis que ele surge na forma de uma sentença: "Para me tornar humano, é necessário me desumanizar".
Desumanizar? Como assim? Certamente, seria este mais um daqueles pensamentos que não fazem muito sentido. Dei mais um trago e deixei seguir o pensamento, não mais a esmo, mas direcionando-o na busca por alguma lógica que fizesse sentido. Ainda refletindo, ao pensamento anterior sucede uma idéia, através da qual compreendo que esse desumanizar-se, não seria em fato, abrir mão de uma natureza humana, ainda que essa natureza não me fosse completamente conhecida, não significava abrir mão dela.
Desumanizar, então, passa a ter um novo sentido: seria uma forma de vivenciar um não-eu, na medida em que esse processo levaria a uma espécie de desmascaramento da persona – persona palavra latina derivada de phersu, que significa personagem, em termos contemporâneos pode ser entendida como personagem ou papel social – revelando não mais os personagens de que me sirvo para as relações sociais, mas um ente que não é em todo abstrato, mas tão pouco um ente concreto.
Percebo que não é possível racionalizar sobre o que seria esse não-eu, senão por uma contraposição ao que ele não é, sendo assim, vivenciar esse não-eu seria como abrir mão da persona.
Tentando trazer mais sentido para essas idéias, me lembrei do que os místicos narram sobre o êxtase, que em muitos casos pode ser entendido como uma experiência de perda do ego, ao passo que sobrevêm uma sensação de integração com o todo.
Dei mais um trago e comecei uma varredura na memória em busca de alguma lembrança que remetesse a essa sensação, e sem nenhum juízo moral e sem me sentir reprimido pelo meu superego, me veio à mente o gozo.
Não é possível traduzir com palavras o gozo. Pois o gozo é aquela sensação não racional, em que se perde os pensamentos, a noção do corpo, do outro, do espaço e do tempo. É forma de nos perdemos no outro.
Da mesma forma que a persona só existe porque é um reflexo do outro – tal como só pode existir o pai se existir o filho - a perda da persona, do eu ou ainda do ego, acontece no caso do gozo por um paradoxo, o gozo pré-supõe o outro.
Como gozo, não entendo aqui o ato sexual, tão menos me refiro à penetração, menos ainda é a ejaculação. Me refiro àquela fração de instantes, que por meio do ato sexual, somos levados – ou tomados - para uma outra realidade em que o sujeito ou persona, pela mesma fração de instantes do gozo, deixa de existir como persona. É como se transcendesse o tempo e o espaço. Uma espécie de supremo sentir. O gozo acontece por meio do sexo, mas não é todo sexo que se goza, ainda que ejacule.
Continuo jogando fumaça para meus pulmões, e refletindo sobre o gozo. Seria ele tão somente uma descarga elétrica executada por um comando cerebral onde meu corpo momentaneamente fica paralisado, provocando essa miríade de sensações.
Penso que entender esse gozo tão somente como uma descarga elétrica cerebral, é pensar no gozo como sendo somente uma atividade física, descartando então toda esfera do processo mental. Mas se pensasse assim, não estaria eu tomando o efeito pela causa?
Me veio à mente, após um outro trago, uma frase do filme The Matrix: "Negar nossos impulsos é negar o que faz de nós humanos".
Somos humanos porque sentimos ou porque pensamos? É o velho debate entre os filósofos empiristas e racionalistas. Somos o que pensamos e o que sentimos, para que precisamos dividir o todo?
Se a nossa natureza pode ser reconhecida pela nossa capacidade de raciocinar e de perceber por meio dos sentidos, o gozo seria uma espécie de curto-circuito da razão e dos sentidos. Faz algum sentido?
Tão rápido como o fluxo de pensamentos que me tomou, se esvai o cigarro que fumava e antes que ele termine, percebo no gozo uma das formas de vivenciar essa transcendência da persona. Sugerem os iogues que através da meditação pode-se alcançar essa vivência – mais chatinha, convenhamos – e de muitas outras formas, por hora, fiquemos no gozo do gozo.
Apago meu cigarro e como se não pudesse mais controlar, volto a pensar frivolamente nos afazeres corriqueiros, após um último suspiro, volta a reinar soberano meu ego. Ligo a TV, o vídeo-game e me divirto com mais uma partidinha de futebol.
